Nos últimos meses, arqueólogos anunciaram a descoberta da tumba original do faraó Tutmés I (ou Tutmosis I), no Vale dos Reis, Egito. Apesar de sua múmia ter sido localizada há mais de um século, a tumba verdadeira permanecia desconhecida até recentemente. Esse achado trouxe novas luzes para estudiosos de Teologia e Arqueologia Bíblica, pois existe a possibilidade de conexões entre Tutmés I e eventos que envolvem o Êxodo, narrado na Bíblia Sagrada.
Neste artigo, apresentaremos um panorama histórico desse período, como os egípcios sepultavam seus governantes, por que a tumba de Tutmés I é tão significativa e de que forma essa descoberta pode lançar novas hipóteses sobre o contexto bíblico do Êxodo. Você ainda encontrará referências acadêmicas que embasam essas descobertas e reflexões.
Este conteúdo foi organizado a partir do material produzido pelo Dr. Rodrigo Silva.
1. Contexto Histórico: Arqueologia das Dinastias e Sepultamentos no Egito
1.1. De Mastabas a Pirâmides
Nos primórdios do Egito faraônico, os nobres e reis eram enterrados em estruturas chamadas mastabas – edificações de formato retangular, com câmaras subterrâneas e espaços destinados a oferendas. Posteriormente, na Terceira Dinastia (c. 2.600 a.C.), o arquiteto Imhotep revolucionou essas construções transformando-as em pirâmides escalonadas, sendo a de Saqqara a mais antiga. Na Quarta Dinastia (c. 2.500 a.C.), surgiram as famosas grandes pirâmides de Gizé (Quéops, Quéfren e Miquerinos).
1.2. O Vale dos Reis e a 18ª Dinastia
Com o passar do tempo, os grandes monumentos chamavam atenção de ladrões de tumbas. Para tentar evitar saques e preservar tesouros, a partir principalmente da 18ª Dinastia (c. 1.550 a.C.), os faraós passaram a ser sepultados de forma mais discreta, em tumbas escondidas no Vale dos Reis, próximo à antiga Tebas (atual Luxor). Foi lá que se descobriu a famosa tumba do Faraó Tutancâmon, em 1922, praticamente intacta e repleta de tesouros.

1.3. Quem foi Tutmés I
Tutmés I (ou Tutmosis I) faz parte dessa 18ª Dinastia e antecede governantes como Tutmés II, Hatshepsut e Tutmés III. Até então, arqueólogos encontraram sua múmia, mas não o local original de seu sepultamento. Em 2022, os primeiros indícios da tumba surgiram, e apenas recentemente se finalizou a limpeza e o estudo do local. Essa nova tumba, portanto, foi o local “primário” de descanso do faraó, embora sua múmia tenha sido transferida na antiguidade para outro sepulcro, provavelmente para protegê-la de saques ou pela deterioração da tumba original.

2. A Descoberta Recente da Arqueologia e Suas Implicações
2.1. Escavações no Vale dos Reis
A equipe liderada pelo professor Liot Land (New Kingdom Research Foundation) identificou a entrada de uma escadaria subterrânea que, em meio a entulhos e fragmentos cerâmicos, exibiam cartuchos com o nome de Tutmés I. Essas inscrições em “cartuchos” (representações ovais ou retangulares que envolvem o nome real) indicam a realeza do indivíduo ali sepultado.


2.2. Estrutura da Tumba
Após retirarem cuidadosamente entulhos acumulados por séculos, os arqueólogos descobriram que a tumba apresentava pinturas danificadas com símbolos do céu estrelado e referências aos textos funerários do Egito Antigo. Pequenos fragmentos de reboco em tons azuis e pedaços de cerâmica com o cartucho de Tutmés I confirmaram que se trata da tumba original desse rei.

2.3. Hipótese de Remoção da Múmia
Embora a múmia de Tutmés I tenha sido encontrada no fim do século XIX em outro sepulcro, a hipótese mais aceita agora é que, ainda na época faraônica, sacerdotes ou oficiais de governo tenham transferido a múmia para outro local a fim de preservar os restos mortais do rei de saques e possíveis contaminações por infiltrações de água. Esse fenômeno de “remoção de múmias” já foi notado com outros faraós, inclusive Hatshepsut.
3. Possíveis Conexões da Arqueologia com a Bíblia Sagrada
3.1. Faraó do Êxodo
Filmes, novelas e animações popularizaram a ideia de que o faraó do Êxodo bíblico seria Ramessés II. Porém, pesquisadores como o egiptólogo e biblista James K. Hoffmeier (em Israel in Egypt: The Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition) e o historiador Kenneth A. Kitchen (em On the Reliability of the Old Testament), defendem datas mais antigas para o Êxodo, situando-o aproximadamente entre 1.450-1.440 a.C. Nessa faixa cronológica, o faraó envolvido não poderia ser Ramessés (que governou por volta de 1.279 a 1.213 a.C.). Assim, muitos apontam para a linha sucessória que envolve Tutmés II e, sobretudo, Tutmés III como o provável “Faraó do Êxodo”.
3.2. Por que Tutmés I é Importante?
A recente descoberta ganha força nos círculos de estudo bíblico porque Tutmés I teria sido o pai de Tutmés II e avô de Tutmés III. Caso a cronologia que coloca o Êxodo em meados do século XV a.C. esteja correta, Tutmés II ou Tutmés III poderiam ter sido o faraó que confrontou Moisés. Há inclusive quem atribua a Hatshepsut (filha de Tutmés I e esposa-irmã de Tutmés II) a famosa “princesa” que teria adotado Moisés às margens do rio Nilo. A tumba de Tutmés I reforça as pesquisas sobre as relações familiares dentro da 18ª Dinastia e sobre como o período pode se alinhar aos relatos bíblicos.
3.3. Detalhes Curiosos
Alguns textos funerários associados a Tutmés III (filho de Tutmés II) trazem representações de soldados afogados, o que alimenta a hipótese de associação com o episódio bíblico da travessia do Mar Vermelho (Êxodo 14). Embora não seja uma “prova” definitiva, esses registros são pontos de convergência interessantes para o diálogo entre arqueologia e Bíblia.

4. Implicações Teológicas e Arqueológicas
- Validação Histórica: Embora a fé cristã não dependa exclusivamente de confirmações arqueológicas, cada novo achado pode fornecer contexto histórico e cultural que enriquece a compreensão dos relatos bíblicos.
- Cronologias Dinásticas: A presença de nomes como “Tutmés” (em egípcio, “Tutmosé” ou “Tutmosis”, que significa “nascido de Tot”) e a raiz “Mose” evocam possíveis paralelos etimológicos com Moisés (em hebraico, “Mochê”), reforçando o debate sobre as origens e adaptações linguísticas no período.
- Integração Cultural: O Egito é mencionado na Bíblia de Gênesis a Deuteronômio como cenário da saga dos hebreus. Com a descoberta de tumbas, múmias e inscrições funerárias, podemos compreender melhor ritos e costumes que servem de pano de fundo para histórias como a de José, Moisés e até mesmo de profecias posteriores.
5. Conclusão
A tumba recém-descoberta de Tutmés I oferece uma oportunidade sem precedentes para revisitar discussões sobre o período exato do Êxodo e sobre a complexa sucessão de faraós da 18ª Dinastia. Enquanto ainda há estudos em andamento e nenhum achado arqueológico pode, sozinho, encerrar um debate histórico-teológico tão amplo, esse é sem dúvida um marco que ilumina ainda mais o mundo da Egiptologia e o cenário em que se desenrolaram as histórias bíblicas do Gênesis e do Êxodo.
Para quem estuda Teologia e Arqueologia Bíblica, a possibilidade de encontrar conexões entre descobertas materiais (como inscrições, construções e objetos fúnebres) e narrativas escritas (como a Bíblia) é sempre um estímulo. Cada fragmento descoberto no deserto egípcio auxilia na reconstrução de um contexto histórico que, por tantos séculos, moldou a fé de milhões de pessoas em todo o mundo.
Referências e Fontes Sugeridas
- KITCHEN, K. A. On the Reliability of the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.
- HOFFMEIER, J. K. Israel in Egypt: The Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition. Oxford: Oxford University Press, 1999.
- ALBRIGHT, W. F. From the Stone Age to Christianity. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1940 (várias reimpressões posteriores).
- BÍBLIA SAGRADA (versões de estudo com introduções históricas e notas arqueológicas, como a Bíblia de Estudo Arqueológica).
- Relatórios Arqueológicos Oficiais da New Kingdom Research Foundation (responsável pela descoberta da tumba de Tutmés I).
- Exibição Permanente no Museu Egípcio do Cairo, onde se encontra a múmia de Tutmés I.
Observação: A pesquisa continua em andamento, e novos artigos científicos devem ser publicados à medida que o exame da tumba de Tutmés I avance. É importante acompanhar revistas acadêmicas em Egiptologia e participar de fóruns respeitados de Arqueologia Bíblica para se manter atualizado sobre descobertas e debates.
Assista o conteúdo completo do vídeo do Dr. Rodrigo Silva aqui.
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